Travis... I´m too Busy Holding up the World


 

FLORES NA JANELA
More Than Us traz um dos melhores momentos do Travis registrado em DVD

por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)

Em meados de 2001, cinco anos após ter debutado no universo musical com o single “All I Wanna Do Is Rock”, a banda escocesa Travis vivia um dos momentos mais harmônicos de sua carreira. Os três discos de estúdio vendiam bem, os fãs começavam a aparecer de todos os cantos do planeta e o quarteto composto por Fran Healy (vocal) Andy Dunlop (guitarra) Douglas Payne (baixo) e Neil Primrose (bateria) já tinha o privilégio de tocar para um público que cantava durante toda a apresentação.

No mês de agosto daquele ano, o grupo fez três shows, para cem mil pessoas, nas cidades de Reading, Leeds (Leeds Festivals) e Glasgow (Glasgow Gig On The Green, do qual participaram também The Strokes, Iggy Pop, PJ Harvey, Green Day, entre outras grandes bandas). O resultado transformou–se em More Than Us (Live in Glasgow), um registro que tem a proposta de servir como diário da banda, durante a passagem por sua terra natal.

O DVD tem 93 minutos e contém o concerto completo em Glasgow - com dezoito canções pinçadas dos três discos – além de documentários, discografia e outros recursos multimídia, como a escolha do ângulo em que se quer assistir partes do show, informações sobre o site oficial e o playlist dividido por álbum. A única desvantagem é que o produto vendido no Brasil é importado e não tem legenda em português, dificultando o entendimento do documentário, cujas opções de língua são inglês, francês e espanhol. O show, por sua vez, está todo em inglês. Quem sabe as canções não terá dificuldade de acompanhar e, quem não sabe, pode fazer uma cola das letras e curtir o alto astral da banda no palco.

CANTE, CANTE, CANTE...

Cantar parece fazer Fran Healy feliz. O bom humor do rapaz mostra-se logo no início da apresentação quando ele se ajoelha e faz uma reverência real para a platéia. A lógica culturalmente difundida parece entrar em colapso. Quem são os deuses, tão propagados pela indústria cultural, naquele espaço? A banda? O público? Nenhum dos dois? Para Healy a resposta parece não importar e o que interessa, naquele instante, é dizer, com um gesto simples, “estamos aqui graças a vocês”.

A gravação foi feita em um momento peculiar para qualquer grupo: a época em que os integrantes apreciam seu próprio trabalho. O Travis estava solto no palco. Andy Dunloap fazia malabarismos com a guitarra enquanto a câmera flagrava o baixista Douglas Payne dançando. As canções fluíam bem e eles pareciam curtir cada momento. Também era perceptível o perfeito entrosamento com o músico convidado, Jeremy Procter, o que foi fundamental para o bom desempenho da banda. Além disso, a relação amistosa com o público contribuiu para o clima descontraído que acompanhou toda a apresentação.

Fran Healy, por sua vez, brincou com o público, comentou o comportamento de Marilyn Manson em sair mostrando partes íntimas do corpo durante os shows e contou como construiu algumas das canções. “Driftwood”, diz ele, é feita para aquelas pessoas que têm potencial para crescer, mas preferem ficar em casa, o dia inteiro, sem fazer nada. “The Cage”, por sua vez, foi feita quando ele estava de coração partido e sua mãe o aconselhou a deixar que as coisas caminhassem, usando o dito popular “Deixe livre tudo aquilo que amas. Se voltar é porque é seu. Se não voltar, é porque nunca foi”. Dessa frase surgiram os versos:

“But then this bird just flew away/ She was never meant to stay/ Oh to keep her caged/ Would just delay the spring” (Mas então este pássaro foi embora/ Ela nunca esteve decidida a ficar/ Oh mantê-la enclausurada/ Seria apenas adiar a estação).

Por último, ele coloca que, embora as pessoas possam parecer distintas, elas se assemelham diante de situações como a morte, o amor ou o encontro com quem se gosta; e que essa convergência de reações mostra que somos todos parte de uma única esfera, de um único ciclo (ou círculo). É daí que surge a letra de “Side”, um dos maiores sucessos da banda até então.

O concerto vai chegando ao fim quando eles tocam “All I Want To Do Is Rock”- em homenagem aos cinco anos de début da formação que se consolidou com o nome de Travis (que foi inspirado em um personagem do filme Paris, Texas, de Win Wenders. Antes, porém, o nome do grupo era Glass Onion e tinha outros integrantes) – e se encerra com “Happy” - para celebrar aquela data, em casa, junto com familiares, amigos e um dia de sol, coisa rara em Glasgow, pelo que diz Fran Healy em sua conversa final com o público.

POR QUE MEU INTERIOR É MEU EXTERIOR...

A princípio, acompanhar a rotina do Travis não é muito diferente do que já tem sido mostrado em outros documentários envolvendo os bastidores de uma grande banda. Nesse sentido, podemos dizer que a produção caiu um pouco no lugar comum, ao mostrar cenas do pessoal acordando e “aquele flagra inusitado no banheiro”, que nem é tão inusitado assim, considerando que poucas pessoas se sentem confortáveis e naturais diante uma câmera.

Mas se for levado em consideração que, depois de um certo tempo, as pessoas esquecem que tem uma lente vigiando tudo o que elas fazem, o quarteto escocês conseguiu dar ao documentário o toque de “diário de uma viagem” que foi proposto inicialmente. As cenas em que eles conversam com as outras bandas, passam o som para o público que chegou cedo ao local do evento, caminham pelo estádio com as crianças e dão entrevistas, conseguem amenizar o ar de falsa realidade que as câmeras costumam reforçar. É uma linha muito tênue, mas que a banda acabou se acostumando, pois, como disse o baixista Douglas Payne ao cinegrafista “vocês passam o tempo inteiro com a câmera ligada”. São os ossos do ofício.

Publicado em: http://www.rabisco.com.br/26/travis.htm



Escrito por Veridiana às 16h45
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